Em 1975, com apenas 24 anos de idade, o baiano Hyldon já era um produtor conhecido e respeitado no meio. Então contratado da PolyGram – atual Universal –, ele foi responsável por produzir e tocar em álbuns consagrados de artistas como Odair José, Erasmo Carlos, Wilson Simonal, Luis Melodia, Jerry Adriani e Wanderléa, entre outros. Porém ainda faltava lançar o principal disco de sua carreira.

Desde que chegou ao mercado, naquele mesmo ano, o LP “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” tem presença obrigatória na discografia de qualquer amante da soul music brasileira. Além da faixa que lhe dá nome, o álbum conta com outras que tocaram bastante nas rádios, como “Na Sombra de Uma Árvore”, “As Dores do Mundo”, “Acontecimento” e “Vamos Passear de Bicicleta”. Para comemorar as quatro décadas do lançamento, Hyldon traz agora o CD “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda – A Origem”.

Como o título indica, o trabalho apresenta as 12 canções do álbum original da forma como elas surgiram. “Gravei todas as músicas só com voz e violão, do jeito que eu as mostrava para o Waldir Arouca Barros (maestro que colaborou na criação dos arranjos)”, explica o artista. “Fiz umas dobras de voz para ficar com o mesmo espírito. Foi uma maneira de curtir aquela sensação, de voltar a tocar aquelas músicas. Isso me remeteu ao início de tudo”. A princípio, o projeto deveria ser restrito à internet, algo parecido com essas videoaulas de violão que estão disponíveis em alguns sites. “No início eu pensava em colocar só no YouTube, para o pessoal que sabe tocar. Mas a coisa foi ganhando uma proporção legal e acabou virando disco”.

A turnê comemorativa teve início nos dias 9 e 10 de janeiro, no Sesc Belenzinho, em São Paulo (SP). No dia 23 de junho, será a vez do Teatro Net Rio, na capital carioca, receber os grandes sucessos de Hyldon. Ao contrário do que acontece no disco, nas apresentações ao vivo ele conta com sua banda, Zona Oeste. “Estou com esses músicos há muito tempo e tenho o maior prazer de tocar com eles. Estamos planejando fazer um DVD com o repertório desses shows. Então a turnê serve como ensaio”.

A BATALHA PELO DISCO

maxresdefaultAquela sequência matadora de produções citadas no primeiro parágrafo serviu como uma espécie de aquecimento para o debut fonográfico de Hyldon. “Só aceitei trabalhar na PolyGram com a condição de poder gravar meu próprio disco”. A primeira gravação surgiu em 1973, quando um cantor que Hyldon iria produzir não conseguiu chegar ao estúdio. Então, ele aproveitou que os músicos estavam todos ali e registrou as primeiras músicas. “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda” (Casinha de sapê) foi a que mais chamou atenção de Jairo Pires, executivo da companhia. Lançada em um compacto – que também incluiu “Meu Patuá” –, a faixa estourou no Brasil inteiro, abrindo caminho para um segundo compacto, lançado em 1974, com as músicas “As Dores do Mundo” e “Sábado e Domingo”. “Esses compactos estouraram sozinhos, sem trabalho de divulgação. Os programadores descobriram e começaram a tocar por conta própria. A gravadora disse que foi sorte de principiante”.

Apesar do sucesso, a relação de Hyldon com a Polygran nunca foi fácil. A resistência do artista em ceder às ordens que vinham de cima acabou adiando em dois anos o lançamento do primeiro Long Play. “A direção queria que eu fizesse apenas um lado do disco com músicas minhas. O outro seria de covers, como “Angie”, dos Rolling Stones. Não aceitei, pois era compositor, não intérprete”, relembra.

Entre 1973 e 1975, Hyldon e os executivos da gravadora viveram em cabo de guerra. Ao mesmo tempo em que batia o pé em relação ao projeto para seu disco, ele continuava produzindo os maiores sucessos do casting da Polygran. “Em oito meses, meu disco foi três vezes para a fábrica. Sempre voltava quando o André Midani (então presidente da gravadora) descobria. No final das contas, ele liberou a fabricação só para não me perder como produtor. Para se ter uma ideia, em 1975, dos dez discos mais vendidos da companhia, quatro eram produzidos por mim”.

Quando o disco chegou ao mercado, Hyldon se cansou das batalhas com a gravadora, largou tudo no Brasil e foi espairecer uns dias em Nova York (EUA). “Acabei ficando oito meses por lá. Fui para ver de perto as coisas que de que gostava. Fui conhecer o Harlem, o teatro Apollo. Vi shows de Marvin Gaye, Tempations, Al Green e ainda comprei um piano. Tive até convite para gravar por lá, mas quis regressar porque estava com saudade do Brasil”, conta.

Ao voltar e novamente discordar dos planos da gravadora para sua carreira, Hyldon decidiu gravar um disco sem qualquer apelo comercial – “Deus, a Natureza e a Música” –, que, por consequência, passou despercebido pelo público. “Queria ir embora da Polygran, então fiz um disco de despedida mesmo. Era totalmente experimental, com músicas mais longas e algumas instrumentais. Não tinha nem foto na capa, o que era uma loucura”.

Como desejado, Hyldon saiu da gravadora. Na verdade, de algumas gravadoras. Seus trabalhos posteriores não repetiram a mesma repercussão de “Na Rua, Na Chuva, Na Fazenda”. “Eu, Tim Maia e Cassiano brigamos com várias discográficas. O pessoal chamava a gente de ‘Esquadrilha da Fumaça’”, diverte-se. “Não me arrependo da forma como defendi minha arte. Até hoje, não deixo as coisas externas influírem na minha música, porque não posso expressar meu sentimento se estiver preso à ditadura de modismos”, afirma. Porém, com a experiência que a vida lhe trouxe, ele analisa que poderia ter feito as coisas de forma diferente. “Meu único arrependimento é não ter me preparado melhor para enfrentar uma gravadora multinacional. Eu ia lá, falava as coisas e batia de frente. Adoro o André Midani, reconheço a importância dele para o mercado musical brasileiro, mas na época me faltou jogo de cintura para discordar das ideias dele”.

Somente no início dos anos 90, Hyldon voltaria a ver uma música sua na boca do povo novamente. “Eu quase não tinha show agendado e o dinheiro dos direitos autorais havia sido confiscado. Então, precisava arrumar alguma coisa para fazer. Aí, tive a ideia de fazer um disco infantil para o Seu Boneco, personagem do Lug de Paula na “Escolinha do Professor Raimundo” (Globo)”. Entre as músicas desse álbum, estava uma que se tornou grito de guerra de várias torcidas de clubes de futebol. “Eu já estava com a música pronta, mas faltava um refrão. Certo dia, antes de dormir, veio a frase que estava faltando ‘ê ô ê ô, Seu Boneco é o terror’”. Algum tempo depois, o artista teve mais uma experiência inesquecível. “Foi um presente quando vi a torcida do Vasco, meu time desde criancinha, cantando a minha música”, relembra.