por Arthur Dapieve

Se Sempre é hoje fosse um livro, os primeiros versos da primeira canção, Milagre, funcionariam como uma epígrafe ou, até mais que isso, um lema: “Pena que perdemos tempo sem saber/ Pena que perdemos tempo a escutar/ Música sem emoção/ Música sem sentimento.” Mas Sempre é hoje é um disco, o novo disco do Nenhum de Nós, e quem quer que tenha escutado um dos seus 16 trabalhos anteriores sabe – sente – que o quinteto sempre combateu esse bom combate. Nunca houve medo de emocionar. O tempo todo esteve presente uma eloquência dramática, gaúcha e universal.

Ela estava lá desde Camila, Camila. o primeiríssimo sucesso, faixa dois de um LP lançado no longínquo 1987, mas ainda muito tocada em rádios e, claro, requisitada em shows. A eloquência dramática continua aqui, desde o título Sempre é hoje, homenagem ao argentino Gustavo Cerati. De brilhante carreira tanto solo (na qual teve um disco chamado Siempre es hoy) quanto com o grupo Soda Stereo, Cerati morreu em 2014, depois de passar quatro anos em um coma causado por um AVC. Fiel a esse “pangauchismo”, o Nenhum de Nós entregou a capa ao argentino Martin de Pasquale.

No entanto, ninguém precisa ter de antemão essa referência a um dos ídolos do Nenhum de Nós para saber o que esperar de Sempre é hoje. O que Thedy Correa (voz), Veco Marques (guitarra e violão de 12 cordas), Carlos Stein (guitarra), João Vicenti (teclados, acordeom e vocais) e Sady Homrich (bateria e percussão) têm feito consistentemente em quase trinta anos, lançando discos a cada dois, ou até menos, é um rock no qual a emoção não implica desatenção nem à carpintaria de letras, melodias e arranjos nem a inovações bem pensadas. Em Sempre é hoje, o nível não cai. Inclusive porque, como o Nenhum de Nós sempre fez um rock maduro, mesmo quando cantava “e eu que tinha apenas 17 anos”, o passar do tempo não virou constrangimento.

Nesse sentido, o título do disco produzido pelo carioca JR Tostoi é não apenas um tributo a Cerati, mas uma profissão de fé nesse eterno presente criativo. Sempre é hoje emenda Milagre com outra música de ritmo bem marcado, Descompasso, outra música assinada pelo quinteto, outra música na qual se podem pescar referências à própria história e postura. “Um descompasso entre nós/ Você querendo que eu seja/ Apenas mais um/ E eu querendo/ Muito mais”, canta o refrão, sobre um excelente trabalho da banda, guitarras urgentes, baixão saltitante, toques precisos nos teclados.

A energia das duas primeiras faixas renova o atestado de vitalidade, mas o Nenhum de Nós não seria o Nenhum de Nós se não surgisse logo uma baladona, daquelas devastadoras. O nome é Foi amor e nela Thedy recebe a parceira Roberta Campos, cantora de voz doce e levemente rouca. “De nada adianta chorar até o amanhecer/ Colocar o seu melhor vestido de sofrer/ Andar em círculos até se perder/ Ninguém merece tanto sacrifício”, a letra arrepia ainda mais porque a música ganha a companhia do Quinteto da Paraíba, cinco cordas que retornam para uma balada suave, embora trate de morte: a décima e última faixa, Estrela do Oriente. Parceria de Thedy com o baixista Estevão Camargo, na prática o sexto membro do Nenhum de Nós.

Entre Foi amor e Estrela do Oriente, há nas seis faixas uma liga bem dosada de beatlemania, psicodelia e música gaúcha, ora um ora outro elemento preponderando. O baixo à la Paul McCartney em Colhendo tempestades, a onda enevoada de Perfeita companhia, o som de acordeom em Total atenção e Amanhã… Tudo apresentado de maneira sucinta, em menos de 40 minutos. Não se joga nem notas nem conversa fora. Por exemplo, Caso raro. Treze versos para contar uma história de amor e redenção. Ou Colhendo tempestades. Quarenta versos – nenhum supérfluo – para contar o oposto. Na penúltima faixa, Amanhã, retoma-se elegantemente o duplo sentido de Milagre: “Amanhã eu tenho ideias, eu tenho metas/ Amanhã eu quero ser uma pessoa inquieta.”

No ano passado, à época em que Sempre é hoje estava sendo finalizado, encontrei por acaso Thedy num shopping do Rio de Janeiro. Ficamos conversando sobre música, claro. A horas tantas, concordamos que os discos dos quais mais gostamos hoje em dia são aqueles que não se revelam de imediato, mas causam alguma estranheza, estranheza que vai se mostrando riqueza, riqueza de propósito e de realização. Ao menos no que diz respeito a Sempre é hoje estávamos enganados. Sim, é possível pegar o ouvinte de imediato e, ainda assim, sustentar o interesse dele em repetidas audições.