
“Rio Grande berro de touro, quatro patas de cavalo. Quem não viveu esse tempo vive esse tempo ao cantá-lo, e eu canto porque me agrada neste meu timbre de galo.“ (Pedro Ortaça – Aparício Silva Rillo)
Quando uma pessoa nos deixa, e depois de transcorrido algum tempo, seu nome deixa de ser pronunciado. Ouvindo os elepês e CDs de Pedro Ortaça, considerado um dos artistas mais importantes da música do Rio Grande do Sul, algumas coisas me vêm à cabeça. A primeira diz respeito à força da música missioneira. Depois, a confirmação de que Ortaça não vai ser esquecido.
IMPULSO CRIADOR
No início dos anos 70, Pedro Ortaça foi parte da dupla “Canário e Canarinho”, ao lado do talentoso músico João Máximo, atuando em shows e bailes na região. Em 1977, a gravação do primeiro disco de vinil, “Mensagem dos Sete Povos”, pela gravadora CID, com a participação dos músicos Reduzino e Reinaldo Malaquias. Instrumentistas muito bons.
Ele produziu trabalhos repletos de canções fundamentais da autêntica cultura gaúcha. Sua obra prima bem pode ser “Chão Colorado” (1981), “Timbre de Galo” (1989), “De Guerreiro a Payador” (1992) ou outro disco qualquer. Ao longo das décadas de 1990 e 2000, ao lado dos filhos Alberto, Marianita e Gabriel Ortaça, seguiu vendendo CDs e emplacando sucessos nas emissoras de rádio e nos shows, ao vivo.
Ortaça tinha noção de para onde devia caminhar, quais os rumos que sua música devia seguir. Ele descobriu e compreendeu o quanto os valores deste “Chão Colorado” é importante. O universo de nossa terra, a coisa milenar, ligada às raízes, aos índios, a história do Rio Grande do Sul. Nas canções com elementos de informação cultural e histórica, demonstrou que sua criatividade e sua sede de renovação, eram, pelo visto, inesgotáveis.
TRADIÇÃO
Basta ouvir o material que Pedro Ortaça produziu e cantou para você perceber que ele é um dos grandes de nossa era. Gênese do movimento que impulsionou a música missioneira. Registrou em elepês e CDs várias composições em parceria com Jayme Caetano Braun, Aparício Silva Rillo, José Hilário Retamozo, Vaine Darde, José João Sampaio, Rubens Dário Soares, Guide Grande, Carlos Cardinal de Oliveira, Gabriel Ortaça e alguns outros. Sua obra não envelheceu. Poderia ter sido produzida no ano passado. Ou hoje pela manhã. Na essência, a obra dele é atualíssima! Isso ajuda explicar o seu enorme sucesso e penetração em todas as classes sociais. Seu canto e as notas ao violão foram uma maneira de sua música atingir pessoas de todas as idades, e de camadas sociais distintas. Se tornou legenda da nossa música, ao lado de Jayme Caetano Braun, Cenair Maicá, Noel Guarany e Luiz Carlos Borges. Antes de tudo, estamos falando de tradição.
SENTIMENTO SOLIDÁRIO
Com relação à sobrevivência da população indígena, Pedro Ortaça não se manteve à distância. Com um olhar humanitário, profundamente amadurecido, estabeleceu um propósito e cumpriu, saiu em defesa dos índios Guarani. Durante sua existência lutou por melhores condições de vida para os descendentes de índios Guarani, da região das Missões. Usou de seu carisma e credibilidade para viabilizar ajuda governamental. Sentimento solidário.
Sua obra é grandiosa, e sua personalidade são de uma riqueza que justifica a quantidade de matérias publicadas e outras tantas que ainda serão escritas. É interessante observar que talento como o de Ortaça é muito raro. Artistas como Pedro Ortaça são raros. E seres humanos que nem ele são mais ainda. Acompanhei com respeito e admiração sua trajetória, e se alguém desejar definir Ortaça em uma única palavra que não for seu próprio nome, essa palavra, tenho certeza, é liberdade. A definição pode até soar ousada, mas não é, de forma alguma, exagerada. Tem algo libertador na sua obra.
Pedro Ortaça, referência da música missioneira e da cultura do Rio Grande do Sul, não foi apenas mais um artista. Ele deixou uma marca, um estilo, impulsionou a música missioneira, definiu uma era, e fortaleceu a cultura gaúcha. Gigante que andou pelo chão das Missões. Importante lembrar, também, Pedro Ortaça será sempre grande. Melhor escutá-lo. Escutar com atenção, mais de uma vez.
(Renato Guimarães Filho)
(Foto de Brenda Quevedo)